domingo, 13 de janeiro de 2013

EUVÍ: Um fio de cabelo ruivo e a figura divina


Outro dia eu fui com um amigo a um bar e depois de muito conversar ele me fez uma confissão estranha. Segundo meu amigo, eu já era um ateísta. O meu estimado colega ainda usou de seu senso crítico para avaliar até mesmo até o tamanho da minha incredulidade. Na visão dele eu era 70% ateísta e apenas 30% teísta. Voltei para casa revendo meus conceitos e cheguei a conclusão de que a análise de meu amigo foi errônea, pois ser incrédulo em nada tem haver com ser ateísta. Não existe sequer alguém que seja 99% teísta ou atéista. Ou você é teísta ou você é ateísta. Simples assim.

O simples fato de questionar a existência de deus não significa que alguém não acredita nele. Eu acredito pessoalmente que existe um deus e que ele mora na minha cabeça, regendo os acontecimentos da minha vida. Posso até ser maluco, mas tomei essa conclusão com base em acontecimentos bastante peculiares que aconteceram comigo e nos quais não encontrei qualquer outra explicação mais válida que poderiam ser atos de orientação divina. Admito que o mesmo processo de análise de acontecimentos pessoais poderiam me fazer crer exatamente no contrário.







Está bem, vou direto ao ponto. Deus existe? Não acredito que seja possível provar isso, mas é possível "provar" um monte de coisas. Pascal, um católico praticante, se deparou com essa pergunta a centenas de anos atrás e seu resultado foi bastante estranho. Segundo Pascal, mesmo se reuníssemos todas as mentes do mundo não conseguiríamos descobrir de fato se deus existe ou não. Então, num universo de 2 eventos existe 50% de chance de deus existir e 50% de chance de deus não existir.

Como Pascal era católico, ele presumiu que se alguém acredita em deus suas chances de ir para o céu eram consideravelmente maiores do que as daqueles que não acreditam em deus. Logo, apenas o risco de ir para o inferno era tão grande que seria mais prudente acreditar em deus apenas por precaução. O pensamento de Pascal incorre que existe céu e inferno, mas é possível que deus exista sem que o céu e inferno existam. Logo, a prudência de Pascal só se valida se partirmos do princípio de que o céu e o inferno existem e que eles são objetivos comuns para todos. No entanto, não se pode chegar em conclusão que o céu e o inferno de fato existam. Então, não é prudente avaliar a existência divina de acordo com fatores dos quais não há certeza absoluta.

Mesmo assim, quem acredita em deus ainda está previnido caso de fato ele exista. O problema é que existem uma infinidade de figura divinas. Se alguém acreditar em deus, mas acreditar no deus errado, esse erro poderá ser fatal se o indivíduo almeja se dar bem no pós-morte. Então mesmo que deus exista a probabilidade de alguém acreditar em deus e ir para o céu ou algo do tipo é menor, pois há a probabilidade de se crer em um deus que não existe, não acreditando no deus que de fato existe. Essa teoria parte do ponto de que apenas acreditando no deus certo se adquire o passe para o céu e que só existe um único deus - o que também não se pode provar. Ainda assim, quem acredita em deus e acredita no deus certo está bastante prevenido.

[caption id="" align="aligncenter" width="1024"] Cadê?[/caption]

Por último, ainda há a possibilidade de alguém crer em deus e acreditar no único deus certo, mas não ser um bom crente em deus, pois quase todo o credo afirma que o passe para a vida eterna depende das boas ações na vida terrena. Sendo assim, alguém pode ser um safado que acredita no deus certo e se ferrar no pós-morte. Ainda assim, sobra alguma probabilidade não desprezável de que alguém que acredita em deus esteja de fato numa posição de prudência. Mas existem outras possibilidades que prejudicam essa teoria, como a possibilidade do deus certo ainda não ter sido sequer descoberto pela humanidade.

O argumento mais lógico que poderia presumir que existe um criador - o que não significa que esse criador seja deus - é a existência da criação. Segundo esse pensamento, se existe uma criação é por que existe um criador. Como existe a criação, então exister um criador. Segundo Richard Dawkins, esse é o argumento mais forte da existência divina e ele não passa de uma falsa tentação, pois ele incorreria em uma falha cabal. Ainda segundo ele, se acreditarmos que existe um criador por causa da criação teríamos então um problema ainda maior, que seria quem seria o criador do criador.

O argumento de Dawkins não me convence em nada, pois ele pode liquidar qualquer argumento plausível. O fato de existir um criador do primeiro criador não faz com que o primeiro criador não tenha de fato criado a criação. Ainda existe a possibilidade de que havendo um criador, não exista um criador do criador. O raciocínio de Dawkins não me convence por parecer meio teimoso também. Digamos que se descubra quem é o primeiro criador, segundo Dawkins teríamos um problema ainda maior, que seria quem é o criador do criador do primeiro criador e assim por diante. A dúvida futura não refuta a certeza atual.

Dawkins tem uma teoria muito boa que é parecida com a teoria de Pascal, que é a teoria do bule de chá de Bertrand Russel. Bertrand Russel dizia para imaginarmos um bule de chá girando ao redor do sol, não podendo ninguém verificar se de fato o bule está ou não lá porque ele é muito pequeno para ser visto pelos telescópios. Ninguém seria insensato em afirmar deve acreditar na existência do bule porque não se poderia provar que ele não existe. Logo, o mais correto seria ser agnóstico sobre a existência do bule até que se tenha como descobrir se ele existe. Fazendo a devida analogia, a teoria do bule traria uma prudência para aqueles que são agnósticos sobre a existência de deus.







Se alguém acredita em algo, cabe a quem acredita primeiro provar que esse algo existe e não a quem não acredita provar que não existe. Não deve haver inversão do ônus da prova. A teoria do bule pode ser refutada com um pequeno esforço. O fato de alguém não acreditar que o bule está ao redor do sol é porque sabemos que ninguém lançou um bule de chá perto do sol, e mesmo se tivesse lançado dificilmente chegaria lá.

O próprio fato de alguém ter jogado um bule e ele ter se fixado ao redor do sol girando ao redor do sol já é muito difícil de acreditar. Não são duas coisas difíceis de provar, mas duas, que são a existência do bule e como ele chegou lá. Quando se fala de deus, a teoria do bule não prova que ele não existe, apenas alerta que é mais correto ser um agnóstico na existência de deus. No entanto, uma proposição não é provada falsa pela falta de evidências sobre ela. Até um mísero investigador policial sabe que ausência de evidências não é evidência de ausência. Uma proposição pode ser verdadeira na falta de evidência sobre ela.

Por exemplo, qual a evidência de que a mesma pessoa que começou esse texto não foi morta e a sua assassina está escrevendo esse parágrafo? Não é possível ter evidências cabais sobre isso, mas isso pode ter acontecido. A pessoa que está lendo esse parágrafo não tem a mínima chance de provar isso - a não ser da forma escrita e do vocabulário do início do texto, que eu posso estar copiando. Logo, não se pode provar de que eu sou o assassino do escritor do primeiro parágrafo só por causa da falta de evidências. Para quem não sabe, muitas coisas na ciência são acreditadas mesmo sem poderem ser provadas.

Da mesma forma, a falta de provas que o Papai Noel existe não me faz acreditar que ele não existe. Eu não acredito no Papai Noel porque há evidências que provam que ele não existe. Não existem fábricas de brinquedos no pólo norte, nem a casa do Papai Noel, tampouco um trenó voador puxado por renas. Tudo em volta do Papai Noel inexiste, por isso eu não acredito nele. Como não se pode comprovar que tudo em prova de deus inexiste - até porque deus é um ser muito mais complexo que o Papai Noel -, então não se pode afimar com exatidão que ele inexiste.  É possível argumentar provando que deus não é unipotente, unipresente e uniciente, mas nem todas as figuras divinas possuem esses traços.

Isso não significa que ele não possa surgir amanhã ou que ele seja apenas um velho mendigo no meio da rua - se bem que se ele existe e não compões as características mínimas de Papai Noel, então não pode ser chamado de Papai Noel. Da mesma forma, se existe um deus que não compõe as características mínimas de deus, então ele pode ser até um criador inteligente do universo, mas não pode ser chamado de deus. Logo, provar que existe um criador inteligente do universo não implica em comprovar a existência de deus se ele é composto por uma série de características que não se comprovam com o próprio fato dele ser um criador inteligente do universo.

Como então argumentar que existe um criador inteligente do universo? Bem, na biologia já existe a teoria do projetista inteligente, que teria projetado alguns organismos que não teriam como se desenvolver através de uma evolução, como é o caso do flagelo bacteriano. O próprio Richard Dawkins diz respeitar a teoria do criador inteligente como legítima, mas ele afirma que esse criador não pode de forma alguma ser o deus cristão.

Assim como já foi dito, a criação é por si só a prova de um criador, mas a criação pode ter sido feita por um coincidência de fatores. No entanto, quando a coincidência de fatores é muito complexa, pode-se então concluir que um criador inteligente arranjou todos os muitos fatores para que eles tivessem chegado a um determinado resultado, que pode não ter sido feito com a intensão pretendida.



Exemplo: Um astronauta chega em Saturno e encontra uma enorme nave gigante em forma de disco voador totalmente vazia e cheia de mecanismos altamente tecnológicos. O astronauta entra na nave e não encontra ninguém. Ele então presume que a prova de que existe um disco voador indica que existe o criador do disco voador, que seriam ETs. Como o disco voador é altamente complexo, o astronauta presume de que o disco foi criado por um criador inteligente que sabia o que estava fazendo e que chegou àquele resultado.

Da mesma forma, um humano nasce e vê o universo inteiro. Ele pode então presumir que um criador inteligente criou o universo e que ele sabia o que estava fazendo, pois existem condições meticulosas que produzem a vida e que essas condições teriam sido criadas pelo criador que tinha a intenção de que existisse vida na Terra. Todos sabemos que o sol, a lua, o oxigênio e outras condições mínimas para a nossa existência não se reproduzem de forma harmoniosa em outros planetas, o que pode evidenciar que essas condições foram colocadas por um criador inteligente para que elas provocassem exatamente o que provocam.

Essa é a melhor teoria que explica o criador inteligente, mas existe a possibilidade de um universo ter chegado às nossas condições mesmo sem um criador inteligente. Se as teorias do Big Bang e do Big  Crunch forem de fato verdadeiras, então o universo explode com o Big Bang, depois se resfria até se encolher até o ponto onde o Big Bang ocorrerá e esse processo se repetiria infinitas vezes. Em uma dessas infinitas vezes, o universo teria um probabilidade ínfima - mas real - de chegar exatamente o nosso universo chegou, como todas as nossas condições essenciais para a vida na Terra. Mesmo que a teoria da repetição infinita tenha criado o nosso mundo ainda haveria algum tipo de criador que criou esse processo, mas ele não seria essencialmente inteligente.

Então podemos acreditar que o criador inteligente e a repetição infinita poderiam ter produzido o nosso universo. Mas não é porque as duas opções são reais que elas devem ser igualmente consideradas quando suas probabilidades são totalmente díspares.

Exemplo: Numa tribo africana existem um pequeno grupo de famílias que vivem em casas muito grandes e bem arrumadas muito afastadas uma das outras. Uma mulher resolve ir para o mercado comprar alguns alimentos e chegando lá depois de um longo caminho descobre que uma missionária protestante ruiva havia chegado pela manhã naquela região. Ao chegar em casa, a mulher encontra com seu marido que havia chegado do trabalho na lavoura. No dia seguinte, ao abrir a gaveta de roupas de seu marido, a mulher encontra um longo fio de cabelo ruivo atrelado a uma das cuecas amassadas de seu marido.

A mulher pode presumir que se aquele evento aconteceu foi porque alguém o produziu por intenção ou por coincidência. Ela pode presumir que o fio de cabelo da missionária ruiva simplesmente caiu de sua cabeça e foi guiado pelo vento até cair exatamente pelo vão fechado da gaveta, onde por coincidência se atrelou a cueca de seu marido. Esse evento tem uma possibilidade ínfima, mas real e não deve ser desmensurada.

Em contrapartida, a mulher pode presumir que a missionária ruiva entrou em contato intencionalmente com a cueca de seu marido, deixando uma evidência que ele descuidadamente não se precaveu e jogou sua cueca amassada na gaveta. Embora não haja como comprovar nenhuma dessas duas possibilidades, não se pode dar o mesmo valor para as duas opções imaginadas, pois uma delas tem um possibilidade infinitamente maior que a outra. Então se é para acreditar em algumas das duas opções, a opção intencional deve ser escolhida em prejuízo de uma opção coincidental com probabilidade ínfima. Da mesma forma, é preferível acreditar que o universo foi criado por um criador inteligente do que acreditar num processo de repetição infinita com probabilidade baixa.

Meu raciocínio termina aqui. Acredito que existe um criador inteligente que criou o universo para que houvesse vida.

Como já disse, a existência de um criador inteligente não indica que deus existe. Ainda assim vou falar de alguns argumentos que são usados para afirmar a existência de deus - ainda que eu não acredite em alguns deles. Existe o argumento temporal, em algum momento do passado finito, só um ser tão perfeito e infinito com deus seria capaz de criar um universo tão “perfeito” como o nosso.

Existe também o argumento moral ,que indicaria que os valores morais colocados em todos os seres humanos seriam a prova evidente de um deus moral, que colou uma moralidade que trouxesse equilíbria à vida de sua criação. Não acredito em nenhum desses dois argumentos por diversos motivos que prefiro nem explicitar, mas o argumento temporal tem alguma lógica, pois apenas um ser infinito e atemporal conseguiria criar um universo que obedece a lei da causa e do efeito, sem que ele mesmo seja alvo da lei da causa e do efeito. Apenas dessa forma deus não precisaria de um outro deus para o criar e assim sucessivamente, pois ele não obedece regra temporal alguma sendo ele eterno.

Existe a lei da entropia, que diz que sistemas organizados criam sistemas cada vez mais desorganizados, deus seria o ser organizado que criou o nosso universo desorganizado. E o melhor de todos por último, que é o argumento ontológico. O argumento ontolóligico diz que a simples possibilidade da existência de deus já significa que ele existe. Um ser poderoso como deus pode criar um mundo onde não haja vestígio algum de sua existência.

Se eu entrar numa casa, eu vou deixar rastros. Se deus entrar numa casa, ele pode apagar todos os rastros. Ele seria tão poderoso que poderia criar um mundo em que ele simplesmente não existisse ou que sua existência não pudesse ser provada. As possibilidades para esse ser tão poderoso seriam infinitas. Ele poderia ser tudo e inclusive nada. Sendo assim, deus poderia existir até mesmo quando não existiria e sua existência ou não mal faria diferença para nós. Afinal, que deus sabe se esconder muito bem, poucos duvidam.

Ficou faltando falar da relação de deus e da velocidade da luz, o que é um mistério interessantíssimo.

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